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sábado, 3 de julho de 2010

Na Natureza Selvagem




Adaptado a partir da biografia escrita pelo talentoso Jon Krakauer, o roteiro do diretor Sean Penn enxerga seu protagonista como um jovem extremamente sensível cujos olhos se enchem d’água apenas com a visão dos animais em seu habitat. Abandonando seus pais e a irmã depois de se formar, McCandless parte numa viagem sem rumo através dos Estados Unidos com o propósito não muito bem definido de viver uma experiência autêntica de auto-descoberta – e, no processo, se relaciona com todo tipo de indivíduo que cruza seu caminho, demonstrando, assim, um interesse genuíno em estabelecer ligações interpessoais que o ajudem a crescer.

McCandless está – embora não o admita - simplesmente fugindo de seu passado – e seu propósito não declarado (aliás, inconsciente) é encontrar alguma forma de preencher o vazio interior deixado pela relação conturbada com os pais.
Enfim, é a grande tradição americana de exploração do espaço aberto e deserto, com a subsequente criação de uma narrativa que se espalha sob a forma de lenda, perpetuando assim o mito da conquista do oeste selvagem. Dos cowboys, passando pelos beatnikis e chegando nos astronautas, me parece que esse é sempre o ponto: levar ao extremo a exploração da vastidão interna do ser humano por intermédio da vastidão externa (bem mais limitada).

Embora tudo possa ser subvertido, a discussão e o filme vem bem a calhar nessa época de absoluto excesso, de tudo à disposição - especialmente à disposição dos americanos, vamos combinar. Nunca foi tão difícil falar de uma cultura de renúncia, praticada por aventureiros e homens santos em todas as épocas da humanidade. E aí a gente encontra um segundo ponto de dificuldade: a mitificação da renúncia que acaba virando fuga - o que me parece, em parte, ser o caso de Chris Mc Candless. Embora seja perigoso simplificar a questão dessa forma, McCandless sempre foi extremamente revoltado com questões familiares mal resolvidas.
Merecia um capítulo a parte a trilha sonora de Into the Wild. Que trabalho maravilhoso o de Eddie Vedder neste filme! Ele realmente dá outro nível de beleza e de compreensão da história com suas composições. 

sábado, 24 de abril de 2010

Invictus

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O sempre competente Morgan Freeman finalmente ganhou a chance de encarnar o ícone sul-africano neste filme de ação comandada por seu amigo e velho parceiro profissional Clint Eastwood. Inspirado num livro de John Carlin, o roteiro de Anthony Peckham tem início com a libertação de Mandela e sua eleição para Presidente do país que o manteve prisioneiro por quase 30 anos.
Enfrentando a resistência de uma boa parte da elite branca, que lamenta o fim do apartheid, o líder descobre que a seleção nacional de rúgbi, admirada por este segmento da população (e desprezada pela maioria negra), está prestes a ser desmanchada por um recém-empossado comitê de esportes. Enxergando ali a oportunidade de começar a estabelecer uma reconciliação entre os ex-opressores e suas vítimas, ele se aproxima do capitão da equipe, o determinado François Pienaar (Matt Damon), com o objetivo de manifestar seu apoio ao time, que se encontra a alguns meses de disputar a Copa do Mundo.
Freeman empresta seu imenso carisma e sua voz poderosa e evocativa a Mandela, pronunciando as palavras numa cadência cuidadosa que não apenas remete à enunciação do homem que está encarnando, mas que também sugere uma cautela e uma inteligência fundamentais para que aquele homem possa desempenhar suas difíceis funções de guia de um país dividido pelo preconceito e pela miséria.
Conta com alguns momentos de sutileza: é interessante notar, por exemplo, como François fala em africâner com uma criada branca de Mandela sem perceber que isto é uma ofensa ao Presidente (que, por sua vez, finge não reparar) – e Eastwood deve ser elogiado por não tentar chamar a atenção do espectador para o que ocorre, deixando que percebamos sozinhos (ou não) a gafe cometida pelo atleta. Da mesma maneira, quando um dos guarda-costas negros de Mandela se vê diante de um colega branco que desconhece, seu impulso inicial (perguntar se “está preso”) é revelador e tocante, demonstrando seu condicionamento a décadas de opressão e injustiça. Para finalizar, a seqüência envolvendo uma excursão da seleção por uma região empobrecida do país é algo que emociona sem exageros ao mesmo tempo em que ilustra a inteligente estratégia dupla do Presidente, que dá um choque de realidade nos atletas enquanto leva a população a se aproximar do time.
Melhor filme de Clint desde Sobre Meninos e Lobos. Carga dramática absurda, enredo empolgante e um desfecho extremamente comovente. Clint conta e encanta pela maneira como tratou do acontecimento histórico.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Gran Torino



Clint Eastwood, aos 78 anos, está mais do que craque na arte da direção e sabe dessas coisas. Quando o espectador o vê empunhando uma arma de cara fechada, logo lembram do policial politicamente incorreto dos anos 70.

A temática aqui é o racismo e como nós vivemos com ele. Eastwood é Walt Kowalski, um ex-combatente da Guerra da Coréia e montador de carros aposentado que passa seus dias na porta de casa vendo o movimento da rua, tomando cerveja e xingando seus vizinhos Hmong, grupo étnico da região do sudeste Asiático (que lutou ao lado dos Estados Unidos na Guerra da Coréia). Quando Thao, um jovem Hmong, tenta roubar seu estimado carro Gran Torino de 1972, Kowalski fica irado, aponta uma arma para o garoto e por pouco não o mata. Em seguida, a família Hmong faz questão que o jovem trabalhe para Walt como forma de penitência. Durante esse trabalho, Walt transformaria o rapaz em um homem de verdade.

O bairro em que vivem Walt e os Hmong vive sob a constante ameaça de gângsteres, que não só querem atrair Thao para seu grupo como também foram responsáveis por induzi-lo a roubar o Gran Torino. Os embates entre eles e Walt são os melhores momentos do filme. Clint Eastwood sabe manipular a imagem da forma que deseja. Ele sabe que, quando o espectador o vê de cara fechada, com ódio mesmo, tende a se lembrar do personagem dos anos 70. Walt não leva desaforo para casa, e consegue impor sua moral, mesmo tendo quase 80 anos, com o grupo de jovens inconsequentes.

Gran Torino fica nesse meio: ao mesmo tempo em que mostra um Walt sem medo de tirar sangue dos outros, também é um retrato do racismo, já que em nenhum momento ele esconde seu desprezo pelos vizinhos. Isso, claro, até Thao começar a cativá-lo. É uma evolução interessante, mas ainda assim, o melhor do filme é mesmo os momentos durões e machões de Walt Kowalski.

Com relação ao trabalho dos atores, é importante ressaltar que os atores Hmong estão quase todos em seu primeiro filme. A produção buscou autenticidade, e a conseguiu. O contraste com Clint Eastwood (e Christopher Carley, que faz um padre que busca a “redenção” de Walt) é gritante. Eastwood, aliás, está fenomenal como sempre foi.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Um Sonho de Liberdade


Este filme escrito e realizado por Frank Darabont é inspirado numa pequena história do mestre Stephen King, "Rita Hayworth and the Shawshank Redemption". A fita foi nomeada para sete Oscars da Academia e peca por não ter ganhado nenhum. Uma terrível injustiça na verdade. Mas parece que hoje em dia nem sempre os melhores filmes recebem a distinção que merecem. (Algo a melhorar no futuro).

Poucos filmes conseguiram a proeza de serem encenados em um ambiente e falarem de algo que está muito distante do local onde ele se passa, e ainda assim serem totalmente palpáveis. Não é sobre a prisão e o mundo institucionalizado – além do próprio processo de institucionalização – que “Um Sonho de Liberdade” trata, mas justamente sobre o mundo e os sentimentos que estão do outro lado dos muros e que, durante 90% da projeção, sequer é visto pelo espectador. Ao falar sobre liberdade e esperança, conceitos escondidos do outro lado do portão da prisão de Shawshank, o filme de Frank Darabont cria um elo particular com o espectador, porque tira dele também a possibilidade de ver o outro lado. Torna-o cúmplice de seus personagens não na busca pela fuga da prisão, mas na esperança de (pasmem) poder ter esperança.

Durante as décadas que acompanharemos Andy Dufresne (Tim Robbins), bancário rico acusado de matar a esposa e o amante, na prisão de Shawshank, em companhia de “Red” Redding (Morgan Freeman), raramente veremos momentos onde o sol brilhe com intensidade. Esses momentos surgem pontuados, quebrando a constante neblina e o clima úmido, quando o assunto esperança é evocado diretamente ou apareça nas entrelinhas: durante a pintura no telhado, no trabalho fora da prisão, na primeira conversa entre Red e Andy ou na emocionante cena que resume a idéia toda: quando Andy quebra as normas e coloca no alto falante da prisão uma ária de Don Giovanni, de Mozart, para uma platéia de homens alijados da liberdade, absortos em admiração a uma voz que, como o próprio Red diz, ninguém ali sabia o que dizia, mas espetava seus corações de uma forma que eles não sabiam explicar.

Já na história original de King todo o processo de manutenção da esperança e da fé de um homem – e da forma como ele consegue transformar as perspectivas dos que o cercam – baseava-se no tema de manter a humanidade em um ambiente que tenta, simplesmente, transformá-la. No sistema de Shawshank, a disciplina cria a chance de reabilitação. A punição com forma de resgatar a fé, a disciplina e a rotina como meios para alcançar a obediência, que seria a base da vida em sociedade. A cada dez anos, esse processo era avaliado. E entregava à sociedade, décadas depois, um homem completamente incapaz de tomar suas próprias decisões. “Durante 40 anos pedi permissão para mijar. Não posso mais ir ao banheiro sem pedir permissão.” O processo todo é balanceado pela hipocrisia dos que aplicam o sistema, detentores de uma moral mais torta do que daqueles a quem ela é ditada.

Bravo!

terça-feira, 16 de junho de 2009

O Leitor


Eu sempre prefiro ler o livro (quando o filme é baseado nele) e só depois assistir ao filme.

Este eu fiz o inverso: primeiro assisti ao filme e depois li o livro.
Várias passagens eu só realmente fui compreender depois de ler o livro, mas isso não impede que tanto um como o outro seja magnífico.

O filme/livro retrata um processo envolvendo o julgamento de algumas mulheres nazistas que foram guardas da SS em campos de concentração no final da guerra e, nessa qualidade, foram responsáveis por muitas mortes, especialmente de judeus.

A discussão jurídica é apenas o pano de fundo para debates muito mais complexos sobre a natureza humana, a questão da culpa dos alemães, o conflito de gerações, o conteúdo contextual e histórico de justiça, o dever moral de agir diante de uma injustiça, a inexigibilidade de conduta diversa, o direito à memória e à verdade, o direito de defesa e assim por diante. Nesse ponto, o livro é um pouco mais rico do que o filme, embora o filme tenha se mantido muito fiel ao conteúdo do livro.

Enfim, recomendo tanto o livro quanto o filme.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

As Confissões de Schmidt




Dizer que Jack Nicholson é um ator espetacular é quase um pleonasmo. Mas não dizer isto é uma injustiça. Portanto, ainda que possa parecer redundante, "As Confissões de Schmidt" só funciona porque Nicholson está lá. Não dá para pensar em outro ator que encarnasse Walter Schmidt com tanta competência e maestria, sem torná-lo artificial, caricato e entediante. Não é para menos que Nicholson levou para casa o Globo de Ouro como melhor ator e recebeu uma indicação ao Oscar como tal.

Mas vamos, como se diz, começar do começo. Sinopse do filme: Schmidt acaba de se aposentar em uma firma de seguros, especialista em estatísticas, na pequena cidade de Omaha, Nebraska. Sua única filha, Jeannie (Hope Davis), mora em Denver e está prestes a se casar com Randall (Dermort Mulroney, o galã disputado por Julia Roberts e Cameron Diaz em "O Casamento do Meu Melhor Amigo", aqui absolutamente irreconhecível de tão feio), de quem ele decididamente não gosta. Enquanto tenta se reaproximar da filha que tanto ama e impedi-la de se casar, Schmidt precisa olhar para sua própria vida e lidar com sua velhice e sua solidão.

É muito mais um drama, do que uma comédia, embora nos faça rir em alguns momentos com seu humor lento, mas real. Um humor politicamente incorreto e verdadeiro, humano. Mas, enfim, entrecortado por cenas de forte carga dramática.
Neste filme, a velhice é desnudada e apresentada cruamente, sem eufemismos. Pêlos na orelha, rugas ao redor dos olhos... e a solidão de sentir que sua vida está acabando sem que Schmidt tenha feito algo realmente importante, que o faça imortal de alguma maneira.
Em suas reflexões e descobertas, Schmidt lamenta ao constatar que quando ele morrer, e as pessoas que o tiverem conhecido também tiverem morrido, será como se ele nunca tivesse existido.

Mas o filme é esperançoso e guarda um final emocionante. Pode-se dizer que apelou para o sentimentalismo, mas fazer o que, se funciona? Funciona que é uma beleza, aliás. Não só para comover o espectador, mas também para dar ao filme um desfecho e acabamento coerentes e encantadores ao mesmo tempo. Nada de transformações radicais, apenas pequenas mudanças, pequenos detalhes que, desculpem o jargão, fazem toda a diferença.
Sensível e verdadeiro, o filme é quase um monólogo. Não fosse Nicholson tão talentoso, o filme seria absolutamente cansativo. Mas o mérito também fica por conta do roteiro bem construído, que também arrematou o Globo de Ouro em sua categoria.
Kathy Bathes, como sempre, também marca fortemente sua presença no filme. O elenco, de modo geral, ainda que secundariamente, contribui para que a história funcione. São personagens incomuns, mas nem por isso caricatas. Justamente por serem excêntricas é que são tão verdadeiras.

Mesmo os lugares-comuns que existem no filme, do tipo "dê valor a uma pessoa enquanto você a tem por perto" funcionam. Algumas vezes o espectador prova a estranheza do contraste de momentos de humor com momentos sérios, reflexivos e até tristes. Mas este balanço se fecha no final de modo que as pontas deixadas ao longo do filme são amarradas. Falar sobre a velhice sem preconceitos que a amenizem, sem a preocupação de ser politicamente correto.
Esta é a proposta do filme. Falar do envelhecimento, da solidão e da morte com verdade, este é o grande triunfo dele. E, sem dúvida, contar com a contribuição do talento de Nicholson para tanto é uma escolha perfeita: assim fica difícil não acertar na mosca!

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Antes de Partir

A comédia dramática se justifica e se apóia, independente de qualquer outra coisa, no carisma de Jack Nicholson e Morgan Freeman.

Nicholson vive Edward Cole, milionário gestor de hospitais cujo lema é um número: dois leitos por quarto, nunca menos. Freeman é Carter Chambers, um mecânico que abandonou seus sonhos de juventude quando viu que teria uma família para alimentar. Quando os dois ficam fulminantemente doentes, seus caminhos se cruzam.

E se cruzam porque, para não desonrar seu lema, Edward, o dono do hospital, acaba no mesmo quarto de Carter. O estranhamento inicial logo se transforma em apoio mútuo. Ambos têm poucos meses de vida, e só um doente terminal para entender o tipo de drama que o outro vivencia. Do nada, Edward convence Carter a fugir e botar em prática uma lista de últimos - e excêntricos - desejos antes de "baterem as botas". Nos EUA, a expressão usada nesses casos é "chutar o balde", daí o título original do filme, A Lista do Balde.

Pouco antes das filmagens, por uma funesta coincidência, Nicholson teve que ser submetido a uma intervenção cirúrgica que o deixou de molho por meses. O fato de interpretar um personagem turrão à beira da morte evidentemente transtornou o ator - e o filme se beneficia do estado de espírito indômito de Nicholson. Ele atua com um senso de urgência que enriquece o personagem, em interessante contraste com a pose sempre professoral de Freeman.

Gostei muito deste filme. Ensina a acreditar na felicidade mesmo quando ela parece inatingível; ensina a acreditar nos sonhos, mesmo que o fim esteja próximo; relembra que sempre deve-se haver esperanças, mesmo quando tudo parece muito mais que perdido.

Como curiosidade, gostei de saber que Alfonso Freeman, filho de Morgan Freeman, interpreta seu filho neste filme.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Como Água Para Chocolate


O filme mexicano Como Água Para Chocolate, de 1992, é baseado no livro homônimo de Laura Esquivel e carrega uma forte dose do realismo fantástico latino-americano que Gabriel Garcia Marquez e Juan Rulfo tornaram famoso, só que um toque mais feminino e menos árido - um pouco menos, apenas.

A história do amor entre Tita (Lumi Cavazos) e Pedro (o ator italiano Marco Leonardi) é contada por uma descendente de ambos entre rios de lágrimas - mas o filme de jeito nenhum é triste, por exemplo, a cena inicial: "quando as lágrimas que derramou ao nascer finalmente secaram, viram que o que restou foram vinte quilos de sal - que usaram para cozinhar por muitos anos".

O filme dirigido por Alfonso Arau acabou por derivar outro livro, a compilação de receitas Apetite por paixão, prefaciado pela própria Laura Esquivel; infelizmente não são as mesmas receitas que Tita cozinha (como as codornizes ao molho de pétalas de rosas) mas não faz mal porque, ela mesma repete ao longo do filme, o segredo é fazê-las com muito amor.

Uma curiosidade: A personagem Esperanza, quando adulta, foi interpretada por Sandra Arau Esquivel, filha do diretor e da autora/roteirista que acabou por seguir a carreira do pai.

domingo, 18 de maio de 2008

O Carteiro e o Poeta


O filme O carteiro e o Poeta (Il postino, 1994), de Michael Radford, narra a história (fictícia) da amizade entre o poeta chileno Pablo Neruda (Philippe Noiret) e Mario Ruppuolo (Massimo Troisi), carteiro incumbido de entregar a sua abundante correspondência.
A princípio distante, o poeta acaba cativado pela candura do carteiro, o qual, por sua vez, fica encantado com essa aproximação. Apaixonado pela filha da proprietária da taverna local, a bela Beatrice Russo (Maria Grazia Cucinotta), Mario tem a esperança de que "Don Pablo" o ajude a conquistar o coração da sua amada. A história se passa numa ilha de pescadores no sul da Itália, começo da década de 1950, onde Neruda se encontrava exilado.
O maior trunfo de O Carteiro e o Poeta é a irresistível interpretação de Massimo Troisi. O ator constrói seu personagem na medida certa, quase minimalista, em delicados meios-tons: contido, hesitante, tímido, deixando a emoção fluir com um misto de recato e humor. Para contrabalançar, o Neruda de Philippe Noiret (o grande ator francês de Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore, entre muitos outros) é um indivíduo em plena maturidade artística e emocional, autoconfiante e ciente do próprio charme e da admiração que sua figura pública provoca.
Foi um filme recebido com grande emoção pelo público na época do lançamento. Foi candidato ao Oscar de Melhor Filme de 1996 - desde 1973, ano em que Gritos e Sussurros, obra-prima de Ingmar Bergman, foi um dos indicados, um filme de língua não inglesa não era escolhido para ser um dos cinco finalistas do prêmio - e também concorreu aos prêmios de direção, ator (Massimo Troisi), roteiro adaptado e música (Luis Henrique Bacalov), mas ganhou apenas nessa última categoria.
O ator e roteirista Massimo Troisi, 41 anos, que sofria de uma cardiopatia, morreu no dia seguinte ao término das filmagens.

domingo, 16 de dezembro de 2007

Beleza Americana

A crise de Lester Burnham (Kevin Spacey) arrasta-o para um beco sem saída emocional, mas também físico (anuncia-nos, logo no início, que a sua vida não durará muito).
É odiado pela mulher, Carolyn, que só pensa em triunfar com o seu negócio imobiliário, e pela filha adolescente, Jane. O seu emprego está por um fio. Entretanto sente-se fortemente atraído por uma colega de Jane, Angela, à qual atribui o papel central nas suas visões erótico-artísticas.
Para a casa ao lado muda-se a família Fitts. Ricky, sempre armado com uma câmara de vídeo, mostra-se fascinado por Jane. O pai é um coronel dos Marines, aposentado, exacerbadamente nacionalista, homofóbico e decidido a "curar" o filho de qualquer fuga às suas normas rígidas.
É um filme rico em elementos de uma normalidade suburbana americana com a qual já nos familiarizamos. Os personagens que a povoam tendem a ser também déjà vus: a estudante atraente que usa a sua imagem, e o sexo, para triunfar, face à jovem mais introvertida e menos popular; o adolescente problemático, levado pelos pais de escola em escola; a família religiosa e moralmente branqueada, na sua casa arrumadinha e brilhante; a mulher que vive para a carreira e que luta contra a frustração do fracasso.

Assim, descrever o filme de Sam Mendes a alguém, tentando ao mesmo tendo recomendá-lo, pode ser uma tarefa complicada. Não é certamente da história e dos temas abordados, isoladamente, de onde emana este fascínio que nos envolve, mas da particular sensibilidade do cineasta, no tratamento do material, e de um excelente elenco, encabeçado pelo brilhante Kevin Spacey.

A Vida é Bela

A fantástica saga do livreiro Guido Orefice e de como ele conseguiu, por meio da imaginação e da fantasia, transformar os horrores da rotina de um campo de concentração nazista em regras de uma gincana, pelo menos aos olhos do filho de seis anos, conquistou crítica e público com seu espírito leve, porém crítico, e a coragem de fazer uma comédia para falar do que foi o maior drama do século 20: o Holocausto.

O filme traz o contraste entre a vontade de ser feliz e a monstruosidade dos acontecimentos que circundam os personagens, na Itália da Segunda Guerra Mundial. Para fazer "A Vida é Bela", além de Charles Chaplin, uma influência confessa constante, Benigni se inspirou também no que escreveu Leon Trotsky, um dos artífices do socialismo russo, em seu exílio no México.

Foragido de seu país, recluso numa terra estranha e sob a ameaça de ser morto a qualquer momento, Trotsky, em dado momento, contempla a mulher no jardim e escreve que, apesar de tudo, a vida é bela e digna de ser vivida.

É esse otimismo incansável que impregna a história de Guido e de sua família do começo ao fim e a torna, como seu diretor disse, "um hino ao fato de sermos condenados a amar poeticamente a vida porque ela é bela".

O filme pode ser dividido em duas partes muito bem definidas: a luta de Guido (vivido pelo também diretor Benigni) para conquistar seu amor Dora (interpretada por Braschi, mulher de Benigni na vida real) na primeira parte e a luta pela sobrevivência de sua família durante a Segunda Guerra Mundial na segunda metade do filme.
Um filme tocante que ganhou o Oscar de Filme Estrangeiro.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Cinema Paradiso

Um filme Lindo, Lindo, Lindo!!!... Salvatore di Vita é um cineasta bem-sucedido que vive em Roma. Um dia ele recebe um telefonema de sua mãe avisando que Alfredo está morto.
A menção deste nome nome traz lembranças de sua infância e, principalmente, do Cinema Paradiso, para onde Salvatore, então chamado de Totó, fugia sempre que podia, e fazia companhia a Alfredo, o projecionista.
E ali Totó aprendeu a amar o cinema.Após um caso de amor frustrado com Elena, a filha do banqueiro da cidade, Totó deixa a cidade e vai para Roma, só retornarnando trinta anos depois, por causa da morte de Alfredo.
Cinema Paradiso é um dos casos mais curiosos de uma fita que fracassou em sua terra natal para depois ser consagrada no resto do mundo. O filme só conseguiu um pouco de sucesso na Itália quando foi exibido pela terceira vez, e mesmo assim nunca estourou.
Vencedor do Prêmio Especial do Júri em Cannes, em 1989, ganhou também o Oscar de filme estrangeiro no ano seguinte. Nunca houve coisa igual em 20 anos de Festival de Cannes: a difícil platéia de críticos e profissionais aplaudiu este filme de pé durante vários minutos, consagrando o que era até então um fracasso em sua terra natal.
O filme é também um catálogo de citações de todos os grandes momentos do cinema italiano do pós-guerra, com menções a figuras como Totó, Brigitte Bardot, Fellini, Sordi, Yvonne Sanson, Massimo Girotti, Gabin e Renoir, Chaplin, Garbo, Silvana Mangano, "Ulisses" com Kirk Douglas, "Pobres mas Belas", etc.
Não é à toa que Cinema Paradiso" é um dos filmes mais queridos de nossa época. É porque nos toca diretamente no coração e nas tantas lembranças que o cinema nos deu.

Adeus, Lênin!

A maior e melhor característica de Adeus, Lênin não é sua análise ou seu posicionamento crítico sobre a Alemanha que não deu certo, mas o carinho que o diretor mostra ao construir cada cena, ao apresentar cada personagem.

O filme de Wolfgang Becker poderia recorrer ao estereótipo do filme de família, mas, ao contrário, abraça um realismo quase fantástico para falar de amor. Amor entre filho e mãe, sobretudo. Para ajudar sua mãe a se recuperar de um recém-saído estado de coma, o personagem de Daniel Bruhl, um ator surpreendente, resolve mudar a história. Ele restaura a Alemanha Oriental pré-derrubada do Muro de Berlim em depoimentos, vídeos forjados e vidros de pepinos em conserva. Tudo para evitar que a mãe, socialista de carteirinha - e ainda instável depois de despertar de um sono de sete meses, acredite que nada mudou.

Mas sustentar um universo inteiro é complicado e o bom filho precisa fazer com que as mudanças na Alemanha aconteçam aos poucos. Aos poucos, Bruhl refaz a história e cria sua Alemanha perfeita. Comanda mudanças, abraça exilados e multinacionais. E o mundo de seus sonhos passados vai se tornando possível. Wolfgang Becker quis retornar para sua Alemanha idealizada e fez essa viagem com carinho. A família protagonista revela um amor e um cuidado entre seus integrantes que pouco combinam com o estereótipo gélido do alemão comum.

Daniel Bruhl comanda um elenco interadíssimo, onde quase todos têm seu destaque. Sua interpretação é tão despretensiosa e envolvente que torcer por sua personagem é obrigatório. Ao seu lado, Maria Simon, que foge das prisões de uma personagem maluquinha para nos entregar uma filha preocupada, e Chulpan Khamatova, com a namorada-enfermeira apaixonante.

Mas Katrin Saß é quem tem a melhor cena do filme. Quando levanta da cama para olhar Berlim de perto, e vê Lênin voar sobre as ruas da cidade, a atriz representa um povo inteiro que viu seu passado de pedra ir embora pelos ares. Wolfgang Becker brinda ao fim das utopias, com delicadeza para não quebrar as taças.

Sociedade dos Poetas Mortos

Em 1959 na Welton Academy, uma tradicional escola preparatória, um ex-aluno (Robin Williams) se torna o novo professor de literatura, mas logo seus métodos de incentivar os alunos a pensarem por si mesmos cria um choque com a ortodoxa direção do colégio, principalmente quando ele fala aos seus alunos sobre a "Sociedade dos Poetas Mortos".

Um filme se torna mais do que uma mera peça de entretenimento quando exerce algum tipo de impacto sobre o comportamento de alguém. Os melhores filmes deixam marcas, às vezes, em toda uma geração. Vez por outro, filmes não tão bons, mas impactantes, exercem efeito semelhante, para logo em seguida serem esquecidos. Este é o caso de “Sociedade dos Poetas Mortos” (Dead Poets Society, EUA, 1989), o filme mais famoso do diretor australiano Peter Weir.
O longa-metragem com Robin Williams fez um tremendo sucesso entre os jovens no início da década de 1990, mas não sobreviveu muito bem ao sucesso inicial.

Há alguma razão específica para esse fenômeno? Sim, existe: “Sociedade dos Poetas Mortos” é um filme de temática aparentemente subversiva, mas enterrada em um profundo conservadorismo estético e narrativo. Em outras palavras, trata-se de um filme que valoriza as liberdades individuais, e a importância de aprender a desenvolver as próprias idéias, sem copiar nada de ninguém. Só que Peter Weir não seguiu a própria recomendação e fez um filme igual, em aparência e estrutura, a muitos outros. Talvez seja este o motivo da película ter tido sobrevida tão curta, porque, obviamente, ela está longe de ser taxada de ruim.

Para determinada geração, que tinha em torno de 18 anos na virada das décadas de 1980/90, “Sociedade dos Poetas Mortos” exerceu um papel importante, pois representou o resgate de valores que pareciam velhos, antiquados, pouco atraentes. O filme utiliza citações e trechos de poesias de Walt Whitman, Henry David Thoreau, Byron e William Shakespeare, entre outros ícones da literatura romântica e rebelde, para apresentar a sua lição: a boa arte, a verdadeira arte, é aquela que desperta paixões, que celebra a vida. Não tem nada a ver com a fria matemática literária que nos ensinam nas escolas. A arte ensina a pensar. Arte é liberdade.
Peter Weir realiza um trabalho meticuloso, colocando o espectador na mesma posição dos alunos de Keating. “Sociedade dos Poetas Mortos” não é sobre poesia e arte, mas sobre liberdade e autonomia de pensamento.
Nesse sentido, conta com a preciosa colaboração do fotógrafo John Seale (Oscar por “O Paciente Inglês”). A fotografia de Seale é majestosa, e não apenas nas belas imagens da natureza ao redor do campus, como na linda tomada em que um dos alunos desce uma colina de bicicleta, causando uma revoada de pássaros à beira de uma lagoa. A maior parte das cenas se passa em interiores, e a iluminação é perfeita. Preste atenção, por exemplo, nas seqüências que se passam dentro da caverna, iluminadas por velas. A atmosfera é gótica, mas jamais ameaçadora; apenas um pouquinho melancólica.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Trem da Vida

Em todas as matérias na mídia sobre Trem da Vida, foram feitas comparações com o filme italiano A Vida é Bela. O fato é que o diretor de Trem da Vida, o romeno Radu Mihaileanu, escreveu o roteiro de seu filme entre 1993 a 1994 e mandou uma cópia para Roberto Benigni, convidando-o para atuar em Trem da Vida. O comediante italiano recusou e, anos depois, ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.
Em 1941, um vilarejo na Europa Ocidental recebe o alerta de que os nazistas estão chegando para deportar todos os judeus.
Quem dá a notícia é Schlomo, o bobo da aldeia, que é o único capaz de sugerir uma saída: os próprios habitantes irão forjar um trem nazista, interpretando eles mesmo os alemães, os maquinistas e os deportados.
Antes da chegada dos verdadeiros nazistas, o trem parte com destino à Terra Prometida. Tudo vai conforme planejado, exceto pelo fato de que as encenações começam a ficar cada vez mais realistas.
Os "nazistas" se tornam mais autoritários; os "deportados" começam a tramar uma rebelião contra seus falsos algozes, e outros se declaram "comunistas", querendo lutar contra os fascistas, os burgueses e os imperialistas.
Também são hilárias as situações onde o escolhido para ser o comandante do trem treina o vocabulário alemão "sem sotaque" e as diversas piadas com a ganância financeira dos judeus e seus apelos de barganha. O curioso é que, pela primeira vez na história do cinema, o nazismo não é retratado de forma aterrorizante. Fala-se que os nazistas estão matando judeus, mas toda vez que os soldados de Hitler aparecem na tela são como se fossem uns abobados, facilmente enganados pelos alegres judeus. Dessa forma, o holocausto ganha uma versão fantasiosa e de nada adianta tantas raças e crenças diferentes, já que todos buscam a mesma coisa de maneira esperançosa: uma vida melhor.
Vencedor de inúmeros prêmios em todo o mundo, O Trem da Vida é um dos melhores filmes dos últimos tempos sobre o Holocausto.

domingo, 2 de dezembro de 2007

Tomates Verdes Fritos

Um filme simples, mas que encanta com sua simplicidade. "Tomates Verdes Fritos" traz uma história sutil sobre amor e amizade, contada de uma forma bastante atraente.
O trunfo do filme, para quem assistiu e pode perceber, está no fato de desenvolver a história de uma forma bastante sutil. Independente do tipo de relação que Ruth e Idgie constroem, a ênfase é dada apenas ao sentimento que as une. Até mesmo a antipatia que as duas mulheres despertam em habitantes mais conservadores da cidade não está ligada ao fato das duas estarem juntas, mas sim por elas tratarem com igualdade todos os excluídos da sociedade de então.
A história faz chorar várias vezes e tem algumas passagens realmente impróprias para menores de 14 anos. Trata essencialmente de coragem: coragem de superar perdas, de quebrar tabus, de enfrentar preconceitos de várias cores e tamanhos e também de se permitir uma boa amizade. A gente alterna riso e choro com muita facilidade, graças ao trabalho de três gerações de atrizes: Jessica Tandy, Kathy Bates, Mary Stuart Masterson e Mary-Louise Parker. O trabalho delas é de encher os olhos, quase não se sente passar as duas horas do filme.
Nem fotografia extraordinária, nem trilha sonora espetacular ou até mesmo uma direção primorosa. Não que esses aspectos não estejam bastante bem coordenados, mas o que detém a atenção, independente de outras coisas, é mesmo a trama propriamente dita. Assim como o personagem de Evelyn, nos vemos cada vez mais envolvidos na história de Ruth e Idgie, sempre querendo saber o que mais aconteceu. A responsabilidade por tornar os personagens envolventes coube perfeitamente às atrizes escaladas para viverem as protagonistas. Mary Stuart Masterson, apesar de permanecer até hoje um talento desconhecido do grande público, dá vida lindamente à Idgie e Mary-Louise Parker constrói uma Ruth complexa, simultaneamente forte e extremamente frágil. As veteranas Kathy Bates e Jessica Tandy dispensam defesas. A elas, inclusive, coube a maioria das indicações a prêmios levadas pelo filme.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Seabiscuit - Alma de Herói


Muito se falou deste famoso cavalo americano, que teve sua vida contada em filme, numa história linda e emocionante. Creio que muitos que assistiram ao seu filme, chegaram as lágrimas. Fatos como esses fazem do turfe, um esporte emocionante e único. Saber compreender um animal, é tarefa para poucos, e com Seabiscuit, não foi diferente, pois respeitaram ele com animal e assim puderam tirar o melhor dele nas carreiras. . Seabiscuit deixou sua marca com vitórias fantásticas. Seu nome virou lenda no mundo das corridas.
SEABISCUIT, corria muito, todos já sabiam, agora mais ainda, através dessa pequena pesquisa, que ressalta sua linhagem via paterna e materna. Seu pedigree é recheado de nomes de peso na criação mundial, como o caso de: Rock Sand, Man 0'War, Waxi e Rabelais.
Se SEABISCUIT tinha "Alma de Héroi" eu não sei , mas que tinha pedigree de verdadeiros campeões, isso eu tenho certeza.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Sobre Meninos e Lobos

Clint Eastwood, cineasta que gosta de se propor desafios, fez um filme enxuto, bem feito e visualmente inteligente que instiga e divide seus admiradores.
Sinopse, sem muitos detalhes para não estragar o filme para aqueles que ainda não assistiram: três amigos de infância se reencontram quando uma tragédia ocorre. Suspense, intriga e poder apontam nesse controverso drama, que gira em torno do passado, trazendo para o presente antigos traumas, assim como novas dúvidas e suspeitas.A sensação durante o filme é de angústia, indignação, inquietação e até descrença.
É um filme sobre injustiças, violência de diversos gêneros e sofrimento. Que cruza presente e passado impiedosamente. A expectativa do que poderia ter sido e não foi, as conseqüências do ontem no hoje... ninguém pode estar livre de seus próprios fantasmas. O passado, como mostra o filme, é uma marca eterna.
Recebeu 06 indicações ao Oscar 2004: melhor filme, ator (Sean Penn), ator coadjuvante (Tim Robbins), atriz coadjuvante (Marcia Gay Harden), roteiro adaptado e direção.
O elenco de peso, ao lado da direção segura, contribui para dar ao filme a atmosfera precisa: Sean Penn, Kevin Bacon, Tim Robbins, Laurence Fishburne, Laura Linney e Marcia Gay Harden são atores experientes e geralmente talentosos (Bacon amargou algumas participações infelizes e Gay Harden esteve caricata demais, mas ainda assim, não se pode dizer que decepcionam)... Eastwood não engrossou o time de atores, acertadamente, e assim pôde se concentrar com mais afinco na produção, direção e até mesmo, pasmem, na trilha sonora. E não é que o danado se saiu muito bem?
Um bom filme, sem dúvida. Grandes atuação, grande direção, enredo consistente, final relativamente fraco. O saldo, no entanto, é positivo. E como!