terça-feira, 8 de setembro de 2009

Um Sonho de Liberdade


Este filme escrito e realizado por Frank Darabont é inspirado numa pequena história do mestre Stephen King, "Rita Hayworth and the Shawshank Redemption". A fita foi nomeada para sete Oscars da Academia e peca por não ter ganhado nenhum. Uma terrível injustiça na verdade. Mas parece que hoje em dia nem sempre os melhores filmes recebem a distinção que merecem. (Algo a melhorar no futuro).

Poucos filmes conseguiram a proeza de serem encenados em um ambiente e falarem de algo que está muito distante do local onde ele se passa, e ainda assim serem totalmente palpáveis. Não é sobre a prisão e o mundo institucionalizado – além do próprio processo de institucionalização – que “Um Sonho de Liberdade” trata, mas justamente sobre o mundo e os sentimentos que estão do outro lado dos muros e que, durante 90% da projeção, sequer é visto pelo espectador. Ao falar sobre liberdade e esperança, conceitos escondidos do outro lado do portão da prisão de Shawshank, o filme de Frank Darabont cria um elo particular com o espectador, porque tira dele também a possibilidade de ver o outro lado. Torna-o cúmplice de seus personagens não na busca pela fuga da prisão, mas na esperança de (pasmem) poder ter esperança.

Durante as décadas que acompanharemos Andy Dufresne (Tim Robbins), bancário rico acusado de matar a esposa e o amante, na prisão de Shawshank, em companhia de “Red” Redding (Morgan Freeman), raramente veremos momentos onde o sol brilhe com intensidade. Esses momentos surgem pontuados, quebrando a constante neblina e o clima úmido, quando o assunto esperança é evocado diretamente ou apareça nas entrelinhas: durante a pintura no telhado, no trabalho fora da prisão, na primeira conversa entre Red e Andy ou na emocionante cena que resume a idéia toda: quando Andy quebra as normas e coloca no alto falante da prisão uma ária de Don Giovanni, de Mozart, para uma platéia de homens alijados da liberdade, absortos em admiração a uma voz que, como o próprio Red diz, ninguém ali sabia o que dizia, mas espetava seus corações de uma forma que eles não sabiam explicar.

Já na história original de King todo o processo de manutenção da esperança e da fé de um homem – e da forma como ele consegue transformar as perspectivas dos que o cercam – baseava-se no tema de manter a humanidade em um ambiente que tenta, simplesmente, transformá-la. No sistema de Shawshank, a disciplina cria a chance de reabilitação. A punição com forma de resgatar a fé, a disciplina e a rotina como meios para alcançar a obediência, que seria a base da vida em sociedade. A cada dez anos, esse processo era avaliado. E entregava à sociedade, décadas depois, um homem completamente incapaz de tomar suas próprias decisões. “Durante 40 anos pedi permissão para mijar. Não posso mais ir ao banheiro sem pedir permissão.” O processo todo é balanceado pela hipocrisia dos que aplicam o sistema, detentores de uma moral mais torta do que daqueles a quem ela é ditada.

Bravo!

terça-feira, 16 de junho de 2009

O Leitor


Eu sempre prefiro ler o livro (quando o filme é baseado nele) e só depois assistir ao filme.

Este eu fiz o inverso: primeiro assisti ao filme e depois li o livro.
Várias passagens eu só realmente fui compreender depois de ler o livro, mas isso não impede que tanto um como o outro seja magnífico.

O filme/livro retrata um processo envolvendo o julgamento de algumas mulheres nazistas que foram guardas da SS em campos de concentração no final da guerra e, nessa qualidade, foram responsáveis por muitas mortes, especialmente de judeus.

A discussão jurídica é apenas o pano de fundo para debates muito mais complexos sobre a natureza humana, a questão da culpa dos alemães, o conflito de gerações, o conteúdo contextual e histórico de justiça, o dever moral de agir diante de uma injustiça, a inexigibilidade de conduta diversa, o direito à memória e à verdade, o direito de defesa e assim por diante. Nesse ponto, o livro é um pouco mais rico do que o filme, embora o filme tenha se mantido muito fiel ao conteúdo do livro.

Enfim, recomendo tanto o livro quanto o filme.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Casablanca


Casablanca é um clássico filme, vencedor de 3 Oscars, sendo Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro. Dirigido por Michael Curtiz. Um drama que conta a saga daqueles que tentavam fugir da Europa, ocupada pelos nazistas, para a tão sonhada América. O roteiro é baseado em peça teatral de Murray Burnett e Joan Alison.

Em plena Segunda Guerra Mundial, enquanto cidades são invadidas pelos alemães, duas pessoas conseguem viver um romance intenso e inesquecível em Paris. O que torna a história mais interessante é exatamente a impossibilidade deste amor continuar. O roteiro e os diálogos do filme dirigido por Michael Curtiz, em 1942, são perfeitos nesse sentido. llsa, interpretada pela bela atriz sueca lngrid Bergman, apaixona-se por Rick, o charmoso galã Humphrey Bogart, mas, em vez de fugir com ele de Paris, manda-lhe um bilhete de despedida na estação de trem. Ele parte sem entender o que havia acontecido. Tudo isso é contado em flashback.

Anos depois já em Casablanca, na Marrocos francesa, ela aparece com seu marido, o herói Victor Laszlo, interpretado pelo ator Paul Henreid, justamente no Rick's Bar, do qual o personagem de Bogart é dono. Eles estão à procura de um meio de fugir para a América. O sofrimento de Rick ao vê-la é inevitável e ela fica novamente dividida entre seus dois amores.

O final é realmente surpreendente. Mas o sucesso do filme, que até hoje continua ganhando muitos fãs de todas gerações, explica-se pela fórmula bem-dosada de romance, humor, intriga e suspense.O pano de fundo para o romance vivido por Rick e llsa não poderia ser mais tenebroso, com os estrondosos canhões nazistas que invadiam Paris.

Logo no começo do filme, dois soldados alemães são assassinados no trem e as suspeitas da polícia recaem sobre os traficantes de vistos de saída. Um deles é detido em pleno Rick's Bar e morto ao tentar escapar. 0 clima volta a ficar tenso quando o líder da resistência francesa Victor Laszlo desafia os nazistas cantando o hino da França, La Marseillaise.

No final do filme, o capitão Renault joga a garrafa de água Vicky no lixo num claro protesto contra o protecionismo francês.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

As Confissões de Schmidt




Dizer que Jack Nicholson é um ator espetacular é quase um pleonasmo. Mas não dizer isto é uma injustiça. Portanto, ainda que possa parecer redundante, "As Confissões de Schmidt" só funciona porque Nicholson está lá. Não dá para pensar em outro ator que encarnasse Walter Schmidt com tanta competência e maestria, sem torná-lo artificial, caricato e entediante. Não é para menos que Nicholson levou para casa o Globo de Ouro como melhor ator e recebeu uma indicação ao Oscar como tal.

Mas vamos, como se diz, começar do começo. Sinopse do filme: Schmidt acaba de se aposentar em uma firma de seguros, especialista em estatísticas, na pequena cidade de Omaha, Nebraska. Sua única filha, Jeannie (Hope Davis), mora em Denver e está prestes a se casar com Randall (Dermort Mulroney, o galã disputado por Julia Roberts e Cameron Diaz em "O Casamento do Meu Melhor Amigo", aqui absolutamente irreconhecível de tão feio), de quem ele decididamente não gosta. Enquanto tenta se reaproximar da filha que tanto ama e impedi-la de se casar, Schmidt precisa olhar para sua própria vida e lidar com sua velhice e sua solidão.

É muito mais um drama, do que uma comédia, embora nos faça rir em alguns momentos com seu humor lento, mas real. Um humor politicamente incorreto e verdadeiro, humano. Mas, enfim, entrecortado por cenas de forte carga dramática.
Neste filme, a velhice é desnudada e apresentada cruamente, sem eufemismos. Pêlos na orelha, rugas ao redor dos olhos... e a solidão de sentir que sua vida está acabando sem que Schmidt tenha feito algo realmente importante, que o faça imortal de alguma maneira.
Em suas reflexões e descobertas, Schmidt lamenta ao constatar que quando ele morrer, e as pessoas que o tiverem conhecido também tiverem morrido, será como se ele nunca tivesse existido.

Mas o filme é esperançoso e guarda um final emocionante. Pode-se dizer que apelou para o sentimentalismo, mas fazer o que, se funciona? Funciona que é uma beleza, aliás. Não só para comover o espectador, mas também para dar ao filme um desfecho e acabamento coerentes e encantadores ao mesmo tempo. Nada de transformações radicais, apenas pequenas mudanças, pequenos detalhes que, desculpem o jargão, fazem toda a diferença.
Sensível e verdadeiro, o filme é quase um monólogo. Não fosse Nicholson tão talentoso, o filme seria absolutamente cansativo. Mas o mérito também fica por conta do roteiro bem construído, que também arrematou o Globo de Ouro em sua categoria.
Kathy Bathes, como sempre, também marca fortemente sua presença no filme. O elenco, de modo geral, ainda que secundariamente, contribui para que a história funcione. São personagens incomuns, mas nem por isso caricatas. Justamente por serem excêntricas é que são tão verdadeiras.

Mesmo os lugares-comuns que existem no filme, do tipo "dê valor a uma pessoa enquanto você a tem por perto" funcionam. Algumas vezes o espectador prova a estranheza do contraste de momentos de humor com momentos sérios, reflexivos e até tristes. Mas este balanço se fecha no final de modo que as pontas deixadas ao longo do filme são amarradas. Falar sobre a velhice sem preconceitos que a amenizem, sem a preocupação de ser politicamente correto.
Esta é a proposta do filme. Falar do envelhecimento, da solidão e da morte com verdade, este é o grande triunfo dele. E, sem dúvida, contar com a contribuição do talento de Nicholson para tanto é uma escolha perfeita: assim fica difícil não acertar na mosca!

domingo, 15 de fevereiro de 2009

O Incrível Exército de Brancaleone



Este clássico do cinema italiano, retrata os costumes da cavalaria medieval através de uma demolidora e bem humorada sátira. A figura central é Brancaleone, um cavaleiro atrapalhado que lidera um pequeno e esfarrapado exército, perambulando pela Europa em busca de um feudo. Trata-se de uma paródia a D. Quixote de Cervantes.
O filme consegue ser hilário, mesmo na reconstituição dos aspectos mais avassaladores da crise do século XIV, representados pela trilogia "guerra, peste e fome". Utilizando-se sempre da sátira, o filme de Monicelli focaliza a decadência das relações sociais no mundo feudal, o poder da Igreja católica, o cisma do Oriente e a presença dos sarracenos.
Na sua autobiografia, L´Arte della Commedia , Monicelli revelou que o roteiro nasceu de uma sinopse sobre camponeses medievais e suas desventuras, mas o projeto foi abandonado quinze anos antes do filme, em 1950. Na tese de João André Brito Garboggini, o célebre autor conheceu a chamada "comédia italiana" nos anos 30, quando a crítica era refratária a este gênero. Porém, o seu Armatta Brancaleone nasceu quando a comédia chegou ao zênite na Itália e num contexto em que esse tipo de cinema não era tido meramente como arte "evasiva".
Na verdade, o que Monicelli se propõe no filme é a crítica pela sátira e a mais pura contestação política. Mais do que isso, segundo Garboggini, ao pesquisar sobre a vida do velho cineasta, o roteiro contém muitos elementos da vida de seu criador. Mario explicou ao professor que a tal história quixotesca da armada de Brancaleone é, na verdade, uma crítica aos líderes políticos que investem tanto numa causa que eles julgam como correta e vêem os seus sonhos se transformarem em nada, de verem as suas investidas recaírem num cúmulo de "furadas", como nos cômicos da película.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

As 7 Faces do Doutor Lao

Hoje em dia Steven Spielberg e George Lucas são sinônimos de diversão e entretenimento. São visionários e criativos. A seu modo nos contam um conto de fadas. E antes? Havia mais gente: Jack Arnold, Nathan Juran, Ray Harry Hausen e muitos outros.


Mas destes havia um que possuía uma mística, uma capacidade de nos transmitir uma lição de moral, sem estresses e de maneira adorável. Suas fábulas eram um misto de aventura, ficção, drama, questões adultas, porém, ao mesmo tempo infantil. A alegria, a decepção, o medo, a raiva e a tristeza eram trabalhados num misto de ingenuidade e genialidade. George Pal tinha a alma de Peter Pan: recusava-se a crescer o eterno menino que criou obras de vulto. Tentar comparar sua A Máquina do Tempo (1960) com a refilmagem de 2002 não tem sentido, posto que a segunda não possui sequer a mística da original.

As Sete Faces do Doutor Lao (Seven Face of Dr. Lao – 1964) nunca foi refilmado e dificilmente poderá sê-lo, pois tantas são as qualidades. Na modesta cidade de Abalone seus cidadãos estão diante de um dilema: vender suas propriedades para um rico fazendeiro. Um jornal local defende a permanência, mas está perdendo a causa. Surge então o Circo do Doutor Lao. Na verdade, do nada, pois nosso velhinho chinês chega num jumento.


Tony Randal interpreta o Doutor Lao, além de outros seis personagens (Merlin, Pan, Apolônio de Tiana, o Abominável Homem das Neves, a Serpente e Medusa). Tão polivalente quanto o sábio chinês, apresenta nossos pecados, nossas fraquezas. Não se amedronta diante do poderoso fazendeiro, ao contrário, convida-o e em seu circo conhece uma de suas faces (numa autoparódia). Ao final, incita os cidadãos a decidirem por seus destinos. Muita alegoria é empregada, inclusive quanto ao “dragão”, que apesar das constantes advertências, mais parece um girino num aquário que vive cuspindo para fora. Mas aí se dá a verdadeira magia de George Pal: se tudo não é o que aparenta ser, na verdade o que é o “dragão”? Os capangas do fazendeiro derrubam o aquário do bicho desaforado e na verdade descobrem que ele é... um gigantesco dragão!

Moral da história: nem tudo é o que aparenta ser, nem sempre aparentamos o que realmente somos, mas muito cuidado devemos tomar quando um sábio nos previne diante do mal e lhe damos as costas. RECOMENDO, mesmo porque em algum momento de nossas vidas, diante de um dilema, surge um velhinho chinês, que do nada, nos apresenta um circo em que somos as principais atrações!



sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Mary Poppins

Este é com certeza, um dos maiores clássicos da Disney em toda a sua história. “Mary Poppins” marcou várias gerações e, com certeza os mais velhos assistiram muito o filme nas matinês da sessão da tarde. Mesmo tendo envelhecido um pouco, a história da babá misteriosa de poderes mágicos que vai trabalhar na casa de um banqueiro para cuidar de um casal de filhos, e transforma a vida de todos com seu jeito diferente e mágico de fazer as coisas é, até hoje, fascinante.

Cada vez que Mary Poppins usa sua magia, tornando tudo mais divertido e colorido, somos embarcados em um mundo de fantasias onde tudo é possível, e ao som de muita música e dança. Muita mesmo, aliás essa é a única falha do filme, o excesso de números musicais, apesar de serem ótimos (a cena da dança nas chaminés é sensacional). Ainda assim o filme é ótimo. A sua parte técnica não deixa a desejar, com uma direção de arte fabulosa, fotografia e trilha sonora contagiantes, além de efeitos especiais muito bons para a época.


O elenco dá um show, Julie Andrews (em sua estréia nas telas) segura bem sua personagem, mostrando talento e carisma. Dick Van Dyke rouba a cena sempre que aparece na tela, com seu jeito cativante, e seus divertidos números musicais. As crianças Jane (Karen Dotrice) e Michael (Matthew Garber) são incríveis, encantam a todos. A trama é baseada no livro de P. L. Travers, e era um dos projeto que Walt Disney sempre quis fazer. Enfim, “Mary Poppins” é um filme inesquecível que marcou a infância de muita gente. Seria bom que as crianças de hoje também se deliciassem com canções tão divertidas como “Supercalifragalisticexpialidocious”. É um verdadeiro clássico infantil para toda a família ver.

Ganhador do Oscar e do Globo de Ouro de 1965.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Antes de Partir

A comédia dramática se justifica e se apóia, independente de qualquer outra coisa, no carisma de Jack Nicholson e Morgan Freeman.

Nicholson vive Edward Cole, milionário gestor de hospitais cujo lema é um número: dois leitos por quarto, nunca menos. Freeman é Carter Chambers, um mecânico que abandonou seus sonhos de juventude quando viu que teria uma família para alimentar. Quando os dois ficam fulminantemente doentes, seus caminhos se cruzam.

E se cruzam porque, para não desonrar seu lema, Edward, o dono do hospital, acaba no mesmo quarto de Carter. O estranhamento inicial logo se transforma em apoio mútuo. Ambos têm poucos meses de vida, e só um doente terminal para entender o tipo de drama que o outro vivencia. Do nada, Edward convence Carter a fugir e botar em prática uma lista de últimos - e excêntricos - desejos antes de "baterem as botas". Nos EUA, a expressão usada nesses casos é "chutar o balde", daí o título original do filme, A Lista do Balde.

Pouco antes das filmagens, por uma funesta coincidência, Nicholson teve que ser submetido a uma intervenção cirúrgica que o deixou de molho por meses. O fato de interpretar um personagem turrão à beira da morte evidentemente transtornou o ator - e o filme se beneficia do estado de espírito indômito de Nicholson. Ele atua com um senso de urgência que enriquece o personagem, em interessante contraste com a pose sempre professoral de Freeman.

Gostei muito deste filme. Ensina a acreditar na felicidade mesmo quando ela parece inatingível; ensina a acreditar nos sonhos, mesmo que o fim esteja próximo; relembra que sempre deve-se haver esperanças, mesmo quando tudo parece muito mais que perdido.

Como curiosidade, gostei de saber que Alfonso Freeman, filho de Morgan Freeman, interpreta seu filho neste filme.

sábado, 19 de julho de 2008

Os Girassóis da Rússia

Marcello Mastroianni (de “A Doce Vida”) e Sophia Loren (de “A Queda do Império Romano”), a dupla dinâmica do Cinema Italiano que fez bastante sucesso entre as décadas de 60 e 70, gravou esse filme em 1969-70, dirigido por Vittorio de Sica (“Ladrão de Bicicletas”).Os três já haviam trabalhado juntos em 1963, em “Ontem, Hoje e Amanhã”.
A parceria entre Loren e Mastroianni perdurou por mais 5 filmes.No total, eles tiveram 12 trabalhos em comum (o primeiro foi em 1950 e o último em 94, dois anos antes da morte de Marcello) e foram, creio eu, grandes representantes do excelente Cinema Italiano pelo mundão afora.

Giovanna e Antonio, recém-casados, são separados quando, por artimanhas malucas do destino, ele é convocado pelas tropas italianas a partir para a Rússia em defesa de seus país, que enfrentava a Segunda Guerra Mundial.
Antonio vai e nunca mais dá notícias. Simplesmente desaparece sem deixar pistas: as forças armadas o consideram morto. Inconformada e crente de que seu marido não morreu, Giovanna vai à Rússia procurá-lo. Qual não é sua surpresa quando ela encontra Antonio, mas não seu marido.

“I Girasoli” foi gravado parte na Itália, parte na Rússia.Tem uma trilha sonora muito bonita e várias cenas memoráveis, como a que mostra Giovanna procurando, um por um, o túmulo do esposo num imenso campo de girassóis e as lindas cenas de despedida e reencontro das personagens.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Como Água Para Chocolate


O filme mexicano Como Água Para Chocolate, de 1992, é baseado no livro homônimo de Laura Esquivel e carrega uma forte dose do realismo fantástico latino-americano que Gabriel Garcia Marquez e Juan Rulfo tornaram famoso, só que um toque mais feminino e menos árido - um pouco menos, apenas.

A história do amor entre Tita (Lumi Cavazos) e Pedro (o ator italiano Marco Leonardi) é contada por uma descendente de ambos entre rios de lágrimas - mas o filme de jeito nenhum é triste, por exemplo, a cena inicial: "quando as lágrimas que derramou ao nascer finalmente secaram, viram que o que restou foram vinte quilos de sal - que usaram para cozinhar por muitos anos".

O filme dirigido por Alfonso Arau acabou por derivar outro livro, a compilação de receitas Apetite por paixão, prefaciado pela própria Laura Esquivel; infelizmente não são as mesmas receitas que Tita cozinha (como as codornizes ao molho de pétalas de rosas) mas não faz mal porque, ela mesma repete ao longo do filme, o segredo é fazê-las com muito amor.

Uma curiosidade: A personagem Esperanza, quando adulta, foi interpretada por Sandra Arau Esquivel, filha do diretor e da autora/roteirista que acabou por seguir a carreira do pai.

domingo, 18 de maio de 2008

O Carteiro e o Poeta


O filme O carteiro e o Poeta (Il postino, 1994), de Michael Radford, narra a história (fictícia) da amizade entre o poeta chileno Pablo Neruda (Philippe Noiret) e Mario Ruppuolo (Massimo Troisi), carteiro incumbido de entregar a sua abundante correspondência.
A princípio distante, o poeta acaba cativado pela candura do carteiro, o qual, por sua vez, fica encantado com essa aproximação. Apaixonado pela filha da proprietária da taverna local, a bela Beatrice Russo (Maria Grazia Cucinotta), Mario tem a esperança de que "Don Pablo" o ajude a conquistar o coração da sua amada. A história se passa numa ilha de pescadores no sul da Itália, começo da década de 1950, onde Neruda se encontrava exilado.
O maior trunfo de O Carteiro e o Poeta é a irresistível interpretação de Massimo Troisi. O ator constrói seu personagem na medida certa, quase minimalista, em delicados meios-tons: contido, hesitante, tímido, deixando a emoção fluir com um misto de recato e humor. Para contrabalançar, o Neruda de Philippe Noiret (o grande ator francês de Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore, entre muitos outros) é um indivíduo em plena maturidade artística e emocional, autoconfiante e ciente do próprio charme e da admiração que sua figura pública provoca.
Foi um filme recebido com grande emoção pelo público na época do lançamento. Foi candidato ao Oscar de Melhor Filme de 1996 - desde 1973, ano em que Gritos e Sussurros, obra-prima de Ingmar Bergman, foi um dos indicados, um filme de língua não inglesa não era escolhido para ser um dos cinco finalistas do prêmio - e também concorreu aos prêmios de direção, ator (Massimo Troisi), roteiro adaptado e música (Luis Henrique Bacalov), mas ganhou apenas nessa última categoria.
O ator e roteirista Massimo Troisi, 41 anos, que sofria de uma cardiopatia, morreu no dia seguinte ao término das filmagens.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Doutor Jivago


Épico baseado no romance homônimo de Boris Pasternak, Dr. Jivago virou fenômeno. As platéias se emocionaram com a história de um médico e poeta que inicialmente apoia a revolução Russa, mas, aos poucos, se desilude com o socialismo e se divide entre dois amores: a esposa Tania (Geraldine Chaplin) e a bela plebéia Lara (Julie Christie).

Jivago conhecera Lara no leito de morte de sua mãe, onde ela foi seduzida pelo desonesto e devasso amante da mãe, Victor Komarovsky (Rod Steiger). Mais tarde, ao vê-la entrar numa festa de casamento, Jivago percebe-se fuzilando Komarovsky, e começa a compreender seus sentimentos e o que ele vai carregar através de seu casamento. Mais tarde, Lara se casa com o jovem idealista Pasha Antipov (Tom Courtenay). As vicissitudes da história unem e separam Lara e Jivago diversas vezes. O labirinto de encontros e desencontros vai sendo reconstruído pouco a pouco e mostram a História como uma força moldada pelo homem que, por sua vez, é capaz de moldar a vida de cada indivíduo.
O Tema de Lara (Lara's Theme), composto por Maurice Jarre, virou um clássico do gênero. A visão poética de Lean oferece imagens inesquecíveis. São marcantes cenas como a da estrela vermelha brilhando sobre a entrada do túnel no qual entram e saem trabalhadores, outra em que uma criança surge através da vidraça gelada na qual os galhos batem, o ataque da cavalaria contra os bolcheviques ou a maneira que os flocos de neve se transformam em flores, e uma flor se transmuta no rosto de Lara.

Dr. Jivago (Omar Sharif) é um humanista e um intelectual, um homem das artes e da medicina como Tchekov - ele nos conta uma história diferente da que nos mostram os livros: cheia de sentimentos pessoais de indivíduos comuns que amam e sofrem em qualquer época, turbulenta ou tranqüila. E nos lembram que o Estado qualquer Estado é formado por pessoas assim.

A narrativa é feita em flashback a partir do general do exército vermelho Yevgraf (Alec Guinness, da série Guerra nas Estrelas e Passagem Para a Índia) que interroga uma jovem (Rita Tushingham) na esperança de resolver um mistério de família: o que teria acontecido com sua sobrinha depois da morte do seu meio irmão, doutor Jivago?

O romance de Pasternak foi aclamado quando de sua publicação, em 1958, como um ousado desafio à censura russa. A política, porém, é apenas pano de fundo como em E o Vento Levou... a ideologia jamais passa para primeiro plano. Na verdade, a história começa na Rússia czarista, passa pela devastação da Primeira Guerra Mundial, o caos da Revolução Bolchevique, a Guerra Civil Russa, os expurgos e crises dos anos 20 e 30.

sábado, 5 de janeiro de 2008

Apocalypto

“Apocalypto” inicia-se com uma citação do filósofo, historiador e escritor Will Durant sobre Roma, referindo que uma civilização só é conquistada do exterior quando já se destruiu a si mesma. Supostamente, este filme versa sobre a civilização Maia, apesar dessa referência nunca ser explicitada. Mas nem sequer a sugestão de que “Apocalypto” possa ter algum fundamento histórico sustém a sua vacuidade.
“Apocalypto” conta a história de Pata-Jaguar (Rudy Youngblood), um jovem caçador de uma aldeia no meio da floresta tropical. Quando a sua aldeia é atacada por um grupo de guerreiros, o instinto de Pata-Jaguar leva-o a proteger a sua família. Mas quando é capturado a luta pela sua própria sobrevivência não é mais do que a luta pela sobrevivência daqueles que ama e que deixou para trás. Carregando este filme aos ombros, o estreante Rudy Youngblood plasma a transformação da inocência em agressividade, de um homem de família num astuto estratega.

“Apocalypto” é visualmente impressionante. Tem planos verdadeiramente criativos, um ritmo eletrizante e a lindíssima fotografia de Dean Semler. Da floresta verdejante à imponente cidade, as paisagens mexicanas e os cenários são de tirar o fôlego. Mas o fascínio de Mel Gibson por sangue, já patente em “The Passion of the Christ” (2004), parece ter-se agravado. “Apocalypto” é puro gore, e a sua qualidade técnica torna-o o extremamente violento. O espectador é forçado a superar imagens explicitamente cruéis (algumas delas tontas até) na esperança de que a história diante dos seus olhos se mostre digna desse esforço. Mas Gibson mostra apenas uma obsessão estética.

Se “Apocalypto” tem uma mensagem, ela não chega até nós. Tendo em conta os poucos diálogos (os que há, são em Maia), talvez seja mais fácil olhar para este filme como apenas um action movie, sem lhe pedir muito mais. Simplesmente, aproveitar a(s) sua(s) forma(s). Como as da loura que foge e grita durante todo um filme de terror. Com a diferença que aqui é um americano nativo – daqueles que Gibson provavelmente acredita que acabariam metidos em reservas, independentemente das chacinas dos colonos americanos. Tal como parece achar que a dizimação étnica dos conquistadores espanhóis foi consideravelmente irrelevante para o inevitável desaparecimento da sociedade Maia, marcada por fortes superstições e contrastes sociais.
Apesar desta visão parcial, não deixa de ser interessante fazer aqui uma leitura paralela para a nossa realidade: avisando-nos da destruição que nos espera se continuarmos a insistir nos nossos excessos.

domingo, 16 de dezembro de 2007

Beleza Americana

A crise de Lester Burnham (Kevin Spacey) arrasta-o para um beco sem saída emocional, mas também físico (anuncia-nos, logo no início, que a sua vida não durará muito).
É odiado pela mulher, Carolyn, que só pensa em triunfar com o seu negócio imobiliário, e pela filha adolescente, Jane. O seu emprego está por um fio. Entretanto sente-se fortemente atraído por uma colega de Jane, Angela, à qual atribui o papel central nas suas visões erótico-artísticas.
Para a casa ao lado muda-se a família Fitts. Ricky, sempre armado com uma câmara de vídeo, mostra-se fascinado por Jane. O pai é um coronel dos Marines, aposentado, exacerbadamente nacionalista, homofóbico e decidido a "curar" o filho de qualquer fuga às suas normas rígidas.
É um filme rico em elementos de uma normalidade suburbana americana com a qual já nos familiarizamos. Os personagens que a povoam tendem a ser também déjà vus: a estudante atraente que usa a sua imagem, e o sexo, para triunfar, face à jovem mais introvertida e menos popular; o adolescente problemático, levado pelos pais de escola em escola; a família religiosa e moralmente branqueada, na sua casa arrumadinha e brilhante; a mulher que vive para a carreira e que luta contra a frustração do fracasso.

Assim, descrever o filme de Sam Mendes a alguém, tentando ao mesmo tendo recomendá-lo, pode ser uma tarefa complicada. Não é certamente da história e dos temas abordados, isoladamente, de onde emana este fascínio que nos envolve, mas da particular sensibilidade do cineasta, no tratamento do material, e de um excelente elenco, encabeçado pelo brilhante Kevin Spacey.

A Vida é Bela

A fantástica saga do livreiro Guido Orefice e de como ele conseguiu, por meio da imaginação e da fantasia, transformar os horrores da rotina de um campo de concentração nazista em regras de uma gincana, pelo menos aos olhos do filho de seis anos, conquistou crítica e público com seu espírito leve, porém crítico, e a coragem de fazer uma comédia para falar do que foi o maior drama do século 20: o Holocausto.

O filme traz o contraste entre a vontade de ser feliz e a monstruosidade dos acontecimentos que circundam os personagens, na Itália da Segunda Guerra Mundial. Para fazer "A Vida é Bela", além de Charles Chaplin, uma influência confessa constante, Benigni se inspirou também no que escreveu Leon Trotsky, um dos artífices do socialismo russo, em seu exílio no México.

Foragido de seu país, recluso numa terra estranha e sob a ameaça de ser morto a qualquer momento, Trotsky, em dado momento, contempla a mulher no jardim e escreve que, apesar de tudo, a vida é bela e digna de ser vivida.

É esse otimismo incansável que impregna a história de Guido e de sua família do começo ao fim e a torna, como seu diretor disse, "um hino ao fato de sermos condenados a amar poeticamente a vida porque ela é bela".

O filme pode ser dividido em duas partes muito bem definidas: a luta de Guido (vivido pelo também diretor Benigni) para conquistar seu amor Dora (interpretada por Braschi, mulher de Benigni na vida real) na primeira parte e a luta pela sobrevivência de sua família durante a Segunda Guerra Mundial na segunda metade do filme.
Um filme tocante que ganhou o Oscar de Filme Estrangeiro.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Era Uma Vez na América

Para alguns, a vida é uma simples progressão de acontecimentos corriqueiros que se sucedem com o passar dos anos. Para outros, isso é pouco.
Amigos leais, Noodles (Robert de Niro) e Max (James Woods) foram crianças de ascendência judia comuns do Lower East Side nova-iorquino no começo do século 20. Mas queriam mais. Primeiro o envolvimento com o crime. Depois, o controle de todas as ações criminosas da região: um verdadeiro império.
Dirigido pelo cultuado Sergio Leone, Era Uma Vez na América conta cinco décadas de ações criminosas e das vidas das pessoas por trás delas. Aclamado como um dos mais contundentes e melhores filmes de gângsteres da história do cinema. Um épico policial dramático e grandioso, com um elenco à sua altura.
Mais que uma história na América, um fragmento importante da própria história americana.Projeto gigantesco. Quase quatro horas de duração (na versão do diretor). Orçamento de trinta milhões de dólares. Cenários e figurinos de três épocas diferentes. Robert De Niro como ator principal.
Era Uma Vez na América, o último filme de Sergio Leone, foi um desafio em vários sentidos. Os produtores, receosos de um fracasso no mercado americano, reduziram o filme para pouco mais de duas horas e aí provocaram o que temiam: baixas bilheterias e críticas ruins. Leone conseguiu, então, distribuir o filme na Europa na versão original, e tudo mudou: excelentes críticas e bom faturamento.
Mais tarde, relançado nos cinemas dos Estados Unidos, em sua versão Era Uma Vez na América fez o sucesso que merecia. Um épico não poderia mesmo ter uma trajetória burocrática.

Diários de Motocicleta

Um filme que retrata a viagem feita na década de 90 por Ernesto Che Guevara e seu amigo Alberto Granado pela América Latina.
O objetivo, a princípio, era percorrer cerca de 8000 km e explorar o continente que até então só conheciam através dos livros, questão que os deixavam intrigados pois tinham um amplo conhecimento da Grécia Antiga e da Europa, mas em compensação não tinham o mesmo pelo seu próprio continente, sendo esses um dos motivos que os fizeram partir para a explorar o território latino americano.
Os viajantes partiram da Argentina passando por diversos lugares e chegando ao destino final que seria a Venezuela. No decorrer da viagem são surpreendidos pela extraordinária geografia física e humana do continente, o qual havia muita pobreza, fazendo com que os dois mudassem de mentalidade ao longo da viagem, principalmente Che.

Aos poucos eles começam a se sensibilizarem com a extensa pobreza e desigualdade existente no continente. Um dos principais fatores dessa mudança foi sentido quando chegaram na colônia da San Pablo no Peru (Amazônia peruana) onde havia um leprosário. Este leprosário era composto de uma verdadeira segregação entre os doentes, os quais se localizavam na zona sul da colônia, e os médicos e companhia que se encontravam ao norte da colônia, esta que era dividida pelo rio Amazonas, sendo que essa questão da segregação foi uma da que mais tocou Che.
Lá mesmo, na colônia, Che começa a aprofundar seus princípios revolucionários, sobretudo quando faz um discurso a respeito do desejo de uma América unida, sem divisões de nacionalidades, mas sim uma América constituída de uma única raça mestiça, que podemos ver uma certa influencia de Simon Bolívar que teve esse mesmo desejo no século XVIII a respeito do Pan-americanismo (bolivarismo).
Notando assim o tanto que essa viagem influenciou os pensamentos e princípios de CHE. Sendo uma viagem a princípio com o objetivo de aventura, e no fim acaba definindo o destino de um dos maiores lideres revolucionários do séc XX.
Oito anos após a viagem Ernesto já se torna o tão reconhecido Che Guevara um dos líderes mais proeminentes e inspiradores da Revolução Cubana na qual lutou por seus princípios, muito deles adquiridos na viagem pela América Latina. Sendo assim uma viagem de autoconhecimento e transformação para Che.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Cinema Paradiso

Um filme Lindo, Lindo, Lindo!!!... Salvatore di Vita é um cineasta bem-sucedido que vive em Roma. Um dia ele recebe um telefonema de sua mãe avisando que Alfredo está morto.
A menção deste nome nome traz lembranças de sua infância e, principalmente, do Cinema Paradiso, para onde Salvatore, então chamado de Totó, fugia sempre que podia, e fazia companhia a Alfredo, o projecionista.
E ali Totó aprendeu a amar o cinema.Após um caso de amor frustrado com Elena, a filha do banqueiro da cidade, Totó deixa a cidade e vai para Roma, só retornarnando trinta anos depois, por causa da morte de Alfredo.
Cinema Paradiso é um dos casos mais curiosos de uma fita que fracassou em sua terra natal para depois ser consagrada no resto do mundo. O filme só conseguiu um pouco de sucesso na Itália quando foi exibido pela terceira vez, e mesmo assim nunca estourou.
Vencedor do Prêmio Especial do Júri em Cannes, em 1989, ganhou também o Oscar de filme estrangeiro no ano seguinte. Nunca houve coisa igual em 20 anos de Festival de Cannes: a difícil platéia de críticos e profissionais aplaudiu este filme de pé durante vários minutos, consagrando o que era até então um fracasso em sua terra natal.
O filme é também um catálogo de citações de todos os grandes momentos do cinema italiano do pós-guerra, com menções a figuras como Totó, Brigitte Bardot, Fellini, Sordi, Yvonne Sanson, Massimo Girotti, Gabin e Renoir, Chaplin, Garbo, Silvana Mangano, "Ulisses" com Kirk Douglas, "Pobres mas Belas", etc.
Não é à toa que Cinema Paradiso" é um dos filmes mais queridos de nossa época. É porque nos toca diretamente no coração e nas tantas lembranças que o cinema nos deu.

Adeus, Lênin!

A maior e melhor característica de Adeus, Lênin não é sua análise ou seu posicionamento crítico sobre a Alemanha que não deu certo, mas o carinho que o diretor mostra ao construir cada cena, ao apresentar cada personagem.

O filme de Wolfgang Becker poderia recorrer ao estereótipo do filme de família, mas, ao contrário, abraça um realismo quase fantástico para falar de amor. Amor entre filho e mãe, sobretudo. Para ajudar sua mãe a se recuperar de um recém-saído estado de coma, o personagem de Daniel Bruhl, um ator surpreendente, resolve mudar a história. Ele restaura a Alemanha Oriental pré-derrubada do Muro de Berlim em depoimentos, vídeos forjados e vidros de pepinos em conserva. Tudo para evitar que a mãe, socialista de carteirinha - e ainda instável depois de despertar de um sono de sete meses, acredite que nada mudou.

Mas sustentar um universo inteiro é complicado e o bom filho precisa fazer com que as mudanças na Alemanha aconteçam aos poucos. Aos poucos, Bruhl refaz a história e cria sua Alemanha perfeita. Comanda mudanças, abraça exilados e multinacionais. E o mundo de seus sonhos passados vai se tornando possível. Wolfgang Becker quis retornar para sua Alemanha idealizada e fez essa viagem com carinho. A família protagonista revela um amor e um cuidado entre seus integrantes que pouco combinam com o estereótipo gélido do alemão comum.

Daniel Bruhl comanda um elenco interadíssimo, onde quase todos têm seu destaque. Sua interpretação é tão despretensiosa e envolvente que torcer por sua personagem é obrigatório. Ao seu lado, Maria Simon, que foge das prisões de uma personagem maluquinha para nos entregar uma filha preocupada, e Chulpan Khamatova, com a namorada-enfermeira apaixonante.

Mas Katrin Saß é quem tem a melhor cena do filme. Quando levanta da cama para olhar Berlim de perto, e vê Lênin voar sobre as ruas da cidade, a atriz representa um povo inteiro que viu seu passado de pedra ir embora pelos ares. Wolfgang Becker brinda ao fim das utopias, com delicadeza para não quebrar as taças.

Sociedade dos Poetas Mortos

Em 1959 na Welton Academy, uma tradicional escola preparatória, um ex-aluno (Robin Williams) se torna o novo professor de literatura, mas logo seus métodos de incentivar os alunos a pensarem por si mesmos cria um choque com a ortodoxa direção do colégio, principalmente quando ele fala aos seus alunos sobre a "Sociedade dos Poetas Mortos".

Um filme se torna mais do que uma mera peça de entretenimento quando exerce algum tipo de impacto sobre o comportamento de alguém. Os melhores filmes deixam marcas, às vezes, em toda uma geração. Vez por outro, filmes não tão bons, mas impactantes, exercem efeito semelhante, para logo em seguida serem esquecidos. Este é o caso de “Sociedade dos Poetas Mortos” (Dead Poets Society, EUA, 1989), o filme mais famoso do diretor australiano Peter Weir.
O longa-metragem com Robin Williams fez um tremendo sucesso entre os jovens no início da década de 1990, mas não sobreviveu muito bem ao sucesso inicial.

Há alguma razão específica para esse fenômeno? Sim, existe: “Sociedade dos Poetas Mortos” é um filme de temática aparentemente subversiva, mas enterrada em um profundo conservadorismo estético e narrativo. Em outras palavras, trata-se de um filme que valoriza as liberdades individuais, e a importância de aprender a desenvolver as próprias idéias, sem copiar nada de ninguém. Só que Peter Weir não seguiu a própria recomendação e fez um filme igual, em aparência e estrutura, a muitos outros. Talvez seja este o motivo da película ter tido sobrevida tão curta, porque, obviamente, ela está longe de ser taxada de ruim.

Para determinada geração, que tinha em torno de 18 anos na virada das décadas de 1980/90, “Sociedade dos Poetas Mortos” exerceu um papel importante, pois representou o resgate de valores que pareciam velhos, antiquados, pouco atraentes. O filme utiliza citações e trechos de poesias de Walt Whitman, Henry David Thoreau, Byron e William Shakespeare, entre outros ícones da literatura romântica e rebelde, para apresentar a sua lição: a boa arte, a verdadeira arte, é aquela que desperta paixões, que celebra a vida. Não tem nada a ver com a fria matemática literária que nos ensinam nas escolas. A arte ensina a pensar. Arte é liberdade.
Peter Weir realiza um trabalho meticuloso, colocando o espectador na mesma posição dos alunos de Keating. “Sociedade dos Poetas Mortos” não é sobre poesia e arte, mas sobre liberdade e autonomia de pensamento.
Nesse sentido, conta com a preciosa colaboração do fotógrafo John Seale (Oscar por “O Paciente Inglês”). A fotografia de Seale é majestosa, e não apenas nas belas imagens da natureza ao redor do campus, como na linda tomada em que um dos alunos desce uma colina de bicicleta, causando uma revoada de pássaros à beira de uma lagoa. A maior parte das cenas se passa em interiores, e a iluminação é perfeita. Preste atenção, por exemplo, nas seqüências que se passam dentro da caverna, iluminadas por velas. A atmosfera é gótica, mas jamais ameaçadora; apenas um pouquinho melancólica.